REVISTA HOTEL NEWS - SETEMBRO 2013



ARTIGO POR ADRIANA SCARTARIS

Paris
UM OLHAR REVISITADO SOBRE A ARQUITETURA DA CIDADE LUZ






PARIS

Um olhar revisitado sobre a arquitetura da Cidade Luz

POR ADRIANA SCARTARIS


Alguns destinos têm o poder de se revelarem de forma ainda mais surpreendente a cada nova visita e esse é, inegavelmente, o caso de Paris. A Cidade Luz, como é mundialmente conhecida, tem magia suficiente para despertar experiências múltiplas, que vão muito além da visita aos já conhecidos, consagrados e impressionantes pontos turísticos que oferece. Uma boa opção é deixar-se levar pela luz que revela detalhes arquitetônicos de forma inesquecível.

Difícil não se render, por exemplo, à imponência do Palais Garnier, construído pelo arquiteto Charler Garnier para abrigar a Opera de Paris, que é provavelmente a casa de ópera mais famosa do mundo e um dos símbolos da cidade.  Apesar da história de sua construção ser cheia de polêmica e intrigas, o Opera, como é conhecido hoje, impressiona por seus detalhes em ouro, muito vermelho, pela magnífica pintura do teto e por inspirar o autor na construção do romance O Fantasma da Opera. A lenda de que ele foi construído sobre um lago subterrâneo e o acidente com o gigantesco lustre de sete toneladas que, ao se desprender parcialmente do teto, acabou por causar a morte de um membro da plateia em 1896 , foram incorporados ao romance de forma emblemática.

O pequeno relato sobre o Opera abre espaço para a descrição da primeira experiência, nessa viagem, com a luz de Paris. Tinha acabado de chegar, por volta de 21h, e estava anoitecendo. Resolvi sair para dar uma volta e ao me deparar com o Opera não foi difícil escolher o local para o primeiro jantar.  Já tinha ouvido falar dos projetos da premiada Odile Decq e fiquei encantada com o resultado. O projeto do restaurante compõe formas orgânicas em vidro curvo acompanhando as linhas originais das colunas que sustentam a cúpula. As mesas e cadeiras circundadas por formas orgânicas inundadas de vermelho intenso e a iluminação pontuada com precisão tornam o jantar bem mais que uma experiência com ótima comida que conjuga a cozinha clássica e contemporânea. Só para constar, o L Opéra, depois de meia noite, transforma-se em uma das melhores baladas de Paris, mas isso é outra história.


Múltiplas influências

No dia seguinte, sapato baixo, muita disposição e uma boa câmera fotográfica para buscar as luzes da cidade. Sempre quis ver de perto os detalhes da catedral gótica medieval, que levou quase duzentos anos para ser concluída. Seus vitrais são grandiosos e proporcionam uma experiência única ao visitante que se deixa levar pelos encantos da luz. Seus três portais da fachada principal; o Portal de Santa Ana, o Portal da Virgem e o Portal do Julgamento oferecem uma verdadeira aula de história e de entendimento dos momentos político-religiosos que acompanharam sua construção.

Impactante por suas dimensões, o Portal do Julgamento é o mais novo dos três e dá para sentir a autoridade do clero mostrando aos fiéis o peso das leis da igreja como mais importante que a evolução espiritual. O Cristo mostrando as marcas da crucificação nas mãos aparece como julgador, acima dos escolhidos que são coroados e dos condenados que seguem acorrentados. Ao centro, o Arcanjo Gabriel e o diabo seguram a balança do julgamento. Fiquei por vários minutos observando os detalhes e expressões das figuras retratadas no portal e tive a certeza de que os ‘escolhidos’ estavam coroados para fazer lembrar os súditos, a ‘santidade’ dos reis de França. Com o movimento do sol trazendo sombra sobre as faces retratadas, as expressões se modificavam tornando-se mais dramáticas e alguns dos anjos pareciam furiosos e implacáveis.

No centro uma rosa dos ventos gravada em bronze já desgastada pelo vai e vem dos visitantes, que passam por ela sem sequer notarem o que significa. As quatro pedras que cercam o medalhão em bronze trazem uma inscrição. Poucos sabem que na frente da catedral está o marco zero: ‘Point’, ‘Zéro’, ‘Des Routes’ e ‘De France’ - que significa, ‘Ponto zero das estradas da França’.
Observar os vitrais de Notredame é uma experiência única. A luz do sol que vem de fora acaba se misturando com a luz das velas no interior da catedral tornando o momento uma verdadeira viagem no tempo e no espaço. Os efeitos de luz e sombra, o ar quase sufocante e forte aroma de alecrim que domina o ambiente trazem a sensação de que a qualquer momento seremos levados magicamente para a idade média.

A Ponte Alexandre 3º integra o conjunto arquitetônico formado pelo Grand Palais e Petit Palais. Em minha opinião é a mais bela ponte de Paris e uma das mais belas do mundo. Concebida no mais puro estilo Art Nouveau, a ponte foi um presente do  Tsar Alexandre 3º da Rússia para simbolizar a amizade franco-russa.  Exibe ‘As Ninfas do Sena’ que representam a França e as ‘Ninfas de Neva’ que representam a Rússia. 
Em suas extremidades, quatro colunas com o cavalo alado Pegasus ladeados por ‘A França de Carlos Magno’, ‘A França Contemporânea’, ‘A França de Luis 14’ e "A França Renascentista". Passei várias vezes por ela e a cada momento pude fazer uma nova descoberta nos detalhes dos maravilhosos candelabros em bronze e nas esculturas que pareciam mudar de expressão de acordo com a luz do sol.

Ir a Paris e não visitar a Torre Eiffel é impossível. Por mais que já se tenha visto esta maravilha não há como resistir. É realmente linda, e os detalhes de sua estrutura convidam para uma viagem entre suas belas e delicadas formas que, unidas, tornam o conjunto forte e vigoroso. Um detalhe que a maioria dos visitantes não percebe é a homenagem aos setenta e dois cientistas, entre engenheiros, físicos, matemáticos, como também aos militares e políticos que contribuíram para o crescimento da França.
Lembro-me de uma professora da faculdade que criticava enfaticamente a falta do nome de Sophie Germain nesta homenagem, visto que ela foi responsável por um estudo complexo sobre a teoria da elasticidade dos materiais, fundamental para a construção da torre. Ela dizia que Sophie foi excluída simplesmente por ser mulher. Curiosamente a torre é tão feminina em seus detalhes que bem poderia ser uma homenagem para todas as mulheres. Perdi a conta das fotos que fiz.

Outro monumento impressionante nesta capital é o Hotel dos Inválidos, uma verdadeira obra-prima da arquitetura clássica francesa. Concebido durante o reinado de Louis 14 como um hotel/hospital específico para abrigar e garantir cuidados aos soldados inválidos que defenderam a França, abriga hoje um complexo que ainda recebe soldados inválidos e é sede de vários museus como o de Armas, o de História Contemporânea e o do Exército da França.

A fachada com perto de 200 metros abriga um complexo de 15 pátios e uma igreja, cuja cúpula de 107 metros é coberta de ouro puro. Os guias do museu dizem que a cúpula já foi recoberta de ouro cinco vezes, e que em sua última restauração, em 1989, foram consumidas cerca de 550 mil folhas de ouro. Em um grande sarcófago, no centro da cúpula, está o túmulo de Napoleão Bonaparte. Outro militar célebre que tem seu coração sepultado neste complexo é  Sébastien Le Prestre de Vauban, arquiteto responsável pelo conceito dos projetos de arquitetura e engenharia militar criados para Luis 14. 

As várias fortificações militares concebidas por ele foram capazes de tornar o reino de França praticamente impenetrável.
Para fechar a visita com ‘chave de ouro’ pude assistir ao por do sol sobre o Rio Sena visto da Ponte des Arts, em frente ao Louvre. Tudo ficou pintado de ouro; jamais vi um por do sol tão bonito. E como se faltasse encantamento ainda pude curtir o anoitecer no pátio do Louvre, em frente à pirâmide, com um músico tocando Bolero de Ravel em um violoncelo. A sensação que tive era de que tudo aquilo era só para mim. Momentos únicos, que ficam na lembrança como um presente mágico.


* Adriana Scartaris é artista plástica e designer de interiores.